O Dia das Professoras e dos Professores
Compromisso com a educação antirracista
Nilma Lino Gomes é educadora, antropóloga, escritora, ativista e ex-ministra. O Dia das Professoras e dos Professores é uma oportunidade para refletirmos sobre o lugar da docência na sociedade e sobre as condições necessárias para que esses profissionais possam realizar seu trabalho com dignidade, reconhecimento e responsabilidade. É também um momento para perguntarmos que educação queremos construir diante das desigualdades que atravessam a escola e a sociedade brasileira.
Essa reflexão ganha mais importância quando falamos de uma educação democrática e antirracista. Ensinar é também assumir uma posição ética diante do racismo e das desigualdades. A docência não é neutra. As escolhas que fazemos estão presentes no currículo, nas avaliações, nas relações com estudantes e suas famílias e na maneira como enfrentamos os conflitos raciais no cotidiano escolar.
Uma educação antirracista exige responsabilidade, solidariedade, afeto, não violência e compromisso com a justiça. E também conhecimento. Não basta acrescentar autoras e autores negros a um currículo que permanece organizado segundo a mesma lógica excludente. Quem educa precisa se perguntar quem produziu o conhecimento considerado legítimo, quais experiências foram reconhecidas pela ciência, quais foram silenciadas ou invisibilizadas e porque determinados sabres continuam ocupando as margens daquilo que se ensina e se aprende da educação básica à universidade.
Reeducação
Nesse processo, temos muito a aprender com o Movimento Negro, que ao longo da história produziu interpretações sobre o Brasil, formulou demandas educacionais, construiu saberes e pedagogias e provocou mudanças no Estado e nas instituições educacionais. Reconhecê-lo como Movimento Negro Educador significa compreender que os sujeitos coletivos que historicamente enfrentam o racismo também educam a sociedade, a escola, a universidade e o próprio Estado.
Isso nos leva a outro reflexão fundamental: a professora e o professor que assumem uma perspectiva antirracista também precisam se reeducar. Ninguém está pronto. Educar para as relações étnico-raciais implica rever conhecimentos, referências, convicções, linguagens, padrões e expectativas. Implica também interrogar maneiras aparentemente naturais de olhar para estudantes e de reconhecer suas potencialidades.
Por isso, o combate ao racismo não pode ficar restrito a uma única disciplina ou ser lembrado somente em determinadas datas. A educação antirracista nos desafia a estabelecer relações entre os conhecimentos e os sujeitos que os produzem e a compreender a realidade em sua complexidade.
Expectativas com relação ao estudante
Há ainda uma dimensão da prática docente sobre a qual precisamos falar: as expectativas que construímos em relação aos estudantes. O racismo também atua quando se espera menos de estudantes negros e negras. Ele atua na condescendência, na infantilização ou na suposição de que alguns não conseguirão acompanhar a turma.
Reconhecer as desigualdades historicamente produzidas não significa transformar aqueles que as vivenciam em pessoas inferiores. Uma educação antirracista acredita no potencial e no desenvolvimento humano de todos os estudantes. Estudantes negros, indígenas, quilombolas, do campo, com deficiência, jovens, adultos e idosos, pobres, periféricos e pertencentes a outros grupos historicamente discriminados não são objetos de políticas educacionais afirmativas nem simples personagens dos conteúdos escolares. São sujeitos que interpretam o mundo, formulam perguntas, produzem conhecimentos e intervêm na vida.
Perspectiva ampla
Essa compreensão também nos ajuda a não colocar sobre cada professor, individualmente, toda a responsabilidade pela transformação da educação. Uma perspectiva antirracista envolve os sistemas de ensino, as universidades, as políticas educacionais, formação inicial e continuada, as escolas da Educação Básica e as condições concretas em que o trabalho docente acontece. Quando professoras, professores e instituições alteram currículos, enfrentam práticas discriminatórias, questionam hierarquias raciais, sociais, de gênero e de conhecimento e reconhecem outras formas de aprender, conhecer e viver, a própria instituição educacional também se reeduca.
Por isso, a educação antirracista não pode ser reduzida a um conjunto de boas intenções ou a uma lista de procedimentos pedagógicos. Ela é uma prática pedagógica, política, cultural, ética e epistemológica. Professoras e professores antirracistas não são aqueles que simplesmente “levam” o antirracismo para a sala de aula. São protagonistas de uma educação democrática e estão em constante processo de reeducação diante da diversidade.
Celebrar o Dia das Professoras e dos Professores é reconhecer a importância da docência e reafirmar o direito a valorização, formação, conhecimento e condições dignas de trabalho. E é também reconhecer que a educação antirracista faz parte da competência profissional de toda professora e todo professor brasileiro. Ela faz parte da educação transformadora de que o nosso país precisa.